Jose Valdir Pereira
 
 
 
José Valdir Pereira
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18/06/2015 - QUER MUDAR DE VIDA, MAS NÃO SABE POR ONDE COMEÇAR?

Muitas pessoas que visitam a ecovila onde moro ou leem este blog costumam me perguntar como eu consegui fazer tantas mudanças de vida para chegar até aqui, isto é, morar no mato e ter uma vida que é considerada tranquila e serena, na visão de quem observa de fora. Em primeiro lugar, continuo caminhando, um passo de cada vez, e ainda há muito a fazer – o que é algo bom, se pensarmos que a vida é feita de impermanências que nos mantêm despertos! Em segundo, não dá para dar uma receitinha pronta, com ingredientes, modo de preparo e tabela nutricional. Isso seria transformar este espaço de troca e de histórias pessoais em um pretensioso e descabido guia de autoajuda.

Ainda assim, de tanto sentir que há um desejo latente em muitas pessoas de dar uma guinada na vida, um giro de 180 graus, quiçá trocar o escritório pela horta no sítio ou a casinha na praia e o ateliê de artesanato, enfim, fiquei pensando e refletindo sobre minha trajetória (lenta, por sinal) e sinto que poderia, com a humildade necessária a toda espécie de conselho, destacar algumas atitudes que parecem favorecer os processos saudáveis de mudanças de vida.

Uma pergunta que eu costumava me fazer com frequência era: “o que realmente me deixa insatisfeita”? Em geral, temos a tendência de colocar todo o nosso cotidiano no mesmo balaio que diz que tudo está chato, estressante ou desinteressante. Mas é preciso olhar com calma para destacar, se possível, o principal ponto, aquele que pode ser a chave para o início de uma jornada de transformações.

Foi assim que descobri – não tão facilmente – que o que me deixava mais incomodada era a obrigação de cumprir horários rígidos no trabalho, ter que chegar sempre no mesmo horário, cumprir as horas exigidas e, no fim do dia, ainda me sentir sem graça de ir embora sem fazer, pelo menos, uma horinha extra para mostrar meu interesse em “crescer na empresa” – e, com isso, gastar todo o meu dia no trabalho.

Naquele momento, se eu ficasse pensando sobre os problemas da cidade que me irritavam no caminho para o trabalho (o trânsito caótico, a poluição sonora e atmosférica, o metrô lotado ou os restaurantes barulhentos que serviam comida para ser devorada em cinco minutos), provavelmente eu perderia o foco e correria o risco de achar que mudar de casa e ficar mais perto do escritório poderia resolver meus problemas.

Eu não precisava encurtar o trajeto para o trabalho. Eu queria era acabar com ele, trabalhar de casa, tirando proveito da internet e das facilidades tecnológicas que criamos para, supostamente, termos mais tempo livre, lembra? E, claro, ir até a empresa pontualmente, para uma reunião importante ou algo do gênero, e ter liberdade e autonomia para administrar meu tempo por conta própria.

Para conquistar essa meta, esquivei-me de planos de carreira e recusei trabalhos com salários até maiores. Mas fiz isso com consciência e clareza na minha proposta. Pus no papel os gastos que eu tinha com todo tipo de consumo ligado ao ambiente profissional (combustível, estacionamento, roupas, sapatos, acessórios, celular bacana, uma maquiagem “decente”, cursos que davam certo status, almoços mais caros, livros, happy hours com colegas etc. etc. etc.).

A conclusão – veja que óbvia – era que se eu trabalhasse em casa, boa parte desses custos seria simplesmente abolida. Em outras palavras, eu poderia ganhar menos e ainda assim ter o suficiente para levar uma vida mais agradável. Eu tinha essa convicção e ela sempre me ajudava nas bifurcações que eu ia encontrando pelo caminho.

Aos poucos, fui, então, diminuindo minhas horas na empresa para dois dias por semana, priorizando projetos que possibilitavam esse distanciamento, até que, uns dois anos depois, conquistei o sonho dohome office – e, com ele, além da possibilidade incrível de mudar de endereço e até de cidade sem perder o trabalho, surgiram novos desafios: aprender a me organizar, ter mais disciplina, saber “encerrar o expediente” e “voltar para casa”, dar uma pausa no dia para um passeio no parque sem culpa etc.

O que quero dizer é que toda mudança gera uma série de outras mudanças. E será preciso prestar atenção e perceber se os efeitos daquilo que queremos conquistar podem incluir aspectos que não gostaríamos de mudar. Por exemplo: se eu gostasse muito de trabalhar em um ambiente com mais pessoas, curtindo os breves intervalos para um cafezinho com os colegas, talvez eu me sentisse entediada em meu solitário novo escritório…

É complicado: você quer mudar de vida, mas não quer abrir mão do que chama de conforto, ou quer morar numa cidade menor, mas não pode ficar um fim de semana sem visitar uma grande livraria ou ir ao cinema. Ou quer o sossego do sítio, mas morre de medo do escuro, não suporta estrada de terra e tem pavor de cobras e aranhas. São coisas incompatíveis…

É engraçado dizer isso, mas pode acreditar: tem muita gente que sonha em morar na praia, mas nunca parou para pensar sobre o quanto detesta picadas de mosquito, mofo nos armários e fila de turistas na padaria da esquina. Por isso, cuidado com o que você quer, porque você pode conseguir e, após a fase inicial de encantamento, ter de se deparar com o pesadelo do arrependimento.

Observando o que já vi acontecer com amigos e pessoas mais próximas, sinto que o mais difícil não é conseguir mudar, mas sim saber traçar uma boa meta (ou seja, uma meta adequada a você e seu jeito de ser e de se imaginar no futuro). Você precisa, antes de qualquer coisa, saber se o que você quer é realmente o que você quer! Simples assim…

Se o plano é descomplicar a vida e levar uma rotina mais simples, por exemplo, você precisa avaliar o quanto gosta de estar sempre na moda, de comprar peças novas todo mês, passear entre vitrines, comprar revistas especializadas, assistir a programas temáticos na tv, essas coisas. Se quer trocar o carro pela bike, que tal experimentar primeiro se desapegar do cabelo impecável de salão? Se realmente quer morar longe do centro urbano, seria bom testar sua capacidade de ficar sem os serviços de entrega de comida rápida e de improvisar uma refeição saborosa, mesmo estando cansado ou sem inspiração para o fogão…

Imagine-se vivendo a mudança que deseja fazer. Como seria sua rotina? O que você estaria fazendo agora? Com quem? Com que propósito? De uma coisa tenho quase certeza: todo mundo quer melhorar de vida. Mas poucos, hoje, saberiam fazer o pedido certo ao gênio da lâmpada, porque a maioria ainda continua querendo trocar uma vida de ilusão (ligada ao consumo, status e prestígio social) por outra vida de ilusão (desta vez, relacionada à falsa ideia de paraíso na terra, refúgio bucólico ou reencontro com a natureza onírica)…

Meu convite, então, é para que você pense sobre isso com amorosidade e honestidade. Mudar de vida é bem mais fácil do que parece, desde que, antes, você tenha construído uma ponte bem estruturada para ligar o seu desejo a uma nova e mais gentil realidade.

 

Giuliana Capello - 23/09/2014



 

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